18 Janeiro 2012

O PEQUENO COMÉRCIO

É um facto incontornável que as grandes superfícies praticamente já liquidaram o pequeno comércio, pelo menos aqueles locais que chamávamos de mercearias, e que umas décadas atrás tentaram adaptar-se às novas regras ampliando a área de exposição e dando a oportunidade aos clientes de escolher, passeando entre estantes e expositores para seleccionar entre diferentes possibilidades da oferta e, mais interessante para poder amortizar o investimento, que, tal como se verifica com as grandes superfícies, o cliente acabe por adquirir artigos que não estavam na sua lista de compras a fazer, estivesse ela escrita ou mental.

Nesta fase surgiram os cartazes de mini-mercado e supermercado. Cito aqueles de área relativamente pequena, que com este esforço conseguiram sobreviver durante uns tempos. Até que a pressão da publicidade e da insistência dos empresários junto das autoridades locais, foi facilitando autorizações para instalar grandes, ou menos grandes, superfícies que, por diversas razões, se tornaram um chamariz para os cidadãos. Funcionam, em relação aos cliente, tal como uma bosta fresca para as moscas ou um campo florido para as abelhas.

Recordo com saudade as críticas do amigo Eugénio, nas Conversas Cruzadas, (enquanto que o merceeiro da rua direita optou para ficar calado. Aliás é uma pessoa pouco faladora). O referido Eugénio sabia bem que o seu tempo estava a terminar, entendendo por isso o seu negócio. É impensável que as pessoas do Pinhal ou da Da Gorda, por exemplo, se desloquem, a pé ou de burro (que já morreu) até a Vila para se abastecer. O super está mais perto e é muito mais “divertido”. Gasta mais, e não pode deixar fiados, mas, enquanto tem dinheiro vivo ou o cartão funciona: VIVA O HIPER! Para as velhas vendas ficam pequenas compras de necessidade urgente e a insistência em comprar fiado, ou esperar que algum turista entre para comprar pão, fiambre, uma lata de atum, um refrigerante ou mesmo uma garrafa, de vinho ou ginjinha; mas nunca tudo isso numa mesma conta. Os sacos agora saem quase vazios.

Insistindo no Eugénio, ele não só se referia a si próprio. Igualmente citava todos os estabelecimentos, de ramos diversos, que tinham desaparecido da Vila. Desde padaria, barbearia, talho, alfaiate, tabernas clássicas (hoje há quem pretende abrir falsas tascas, onde não há joaquinzinhos fritos nem pipis ou caracóis), papelaria, nem restou nada do que ultrapasse os múltiplos locais para caçar turistas, seja aliciando com inutilidades, bebidas ou restauração. Só estes clientes é que contam.

Será que esta situação se deve simplesmente à mudança de hábitos da população ou também quem devia defender uma Vila histórica tem olhado mais para os espectáculos do que para a sua vida real, a dos já quase inexistentes residentes? Ou tratou-se, tão-somente de deixar de lado as realidades locais, neste caso um dos factores que lhe concediam uma identidade, para tentar alcançar notoriedade a custa de sacrificar aquilo com que não se sentia afim? Decidir com a desculpa de que uma média superfície era uma necessidade imediata para a população e inclusive um passo em direcção à modernidade, como sucederá com a praça da criatividade e mais as anunciadas iniciativas do mesmo pacote. Será com isso que a Vila ressurgirá da sua agonia?

5 comentários:

Anónimo disse...

A câmara está a fazer obras em casas com dinheiro europeu e vai alugá-las a preço baixo a amigos de Lisboa para coisas criativas.
Ideia criativa para "aventais"!

Anónimo disse...

Se o resultado for equivalente às obras de "restauro" para instalar um bar no trajecto para a casa do facho,contrariando todas as normas de construção existentes na Vila, então já estamos conversados.

"Coisas criativas", digamos filhos, poderiam fazer casais novos do concelho que não conseguiram casa para constituir um lar.

Não seria necessário ir procurar "artistas" noutros lados, nem que fosse numa "loja" de aventais, compassos e esquadros, sediada em Lisboa.

Anónimo disse...

Deves ser comuna senão não terias como dizer isso! PS está completamente metido.

Anónimo disse...

Todos temos a obrigação de não esquecer que só mudam as moscas.

E a propósito deste insectos, que incomodam a quem reside na Vila, um dia teremos que falar sobre onde é que fazem criação. Será de facto no aviário, ou nos cavalos, ou mesmo naquele esgoto a céu aberto que escorre para o Arnoia junto à ponte?

Anónimo disse...

Há por aí anónimos engraçados, com espírito de humor.

Então, e este que se levantou às 6 da matina para chamar outro de "comuna"? Como se cada um não pode ser aquilo que lhe aprover!

E, no caso de ser mesmo socialista, é obrigado a fechar a boca em relação ao que não lhe agrada?

Isso é que era bom!

Mesmo assim, quando estiver com insónias, escreva mais, mas procure ser menos azedo, que o sol nasce para todos, até para os amigos do Telmo.